Dá pra ser feliz na quarentena?

Esta questão me faz lembrar o filme “A vida é bela”, que conta a história de um pai convivendo com seu filho em meio à segunda guerra mundial. Bombardeios, falta de comida e até lugar pra morar era o cenário da época. Mesmo assim, esse pai mostrava para o filho que o mundo podia ser visto com outros olhos, pois, além de toda a desgraça, ainda restava muita coisa boa pra se ver.
No momento estamos passando por uma espécie de guerra, com muitas restrições, com muitas privações. Diante disso, temos dois caminhos, dois pontos de vista. O primeiro, que nos leva ao sofrimento, é continuar apegado a tudo o que tínhamos antes disso tudo acontecer. Você fica reclamando do que perdeu e ansioso para retomar a vida tal como era antes. Mas, é quase certo que a vida nunca mais será como era antes.
Outra maneira de encarar o momento é aceitar que as coisas são como são. Você entende que seus planos precisam ser revistos e que agora quem determina sua vida não é você. A própria vida está dizendo o que se deve fazer ou não.
Estamos falando em desapego, em jogo de cintura, na capacidade de rever os valores que definem os rumos de nossas vidas.
A ordem agora é clara. O que é sofisticado, luxuoso, supérfluo, perde o sentido. Chegou a vez da simplicidade. Não é hora de alimentar as picuinhas. Não temos esse tempo a perder. Não é hora de lutar contra a rotina, mas fazer com que ela tenha a melhor qualidade possível. Como não podemos mais  nos deslocar, ficamos restritos a poucos movimentos.
Dá para ser feliz na quarentena? Dá sim. Com muita meditação. Isto significa que você aprende a ser muito íntegro em cada momento, que você valoriza cada momento.
Quer um bom exemplo? Faça do seu despertar um lindo ritual. Acordar pode ser um acontecimento incrível. É uma espécie de renascimento! Você vem do mundo onírico, do inconsciente, e passa para o mundo acordado, consciente. Acorde com calma, preste atenção nessa passagem, sente na cama com os olhos fechados e curta esse momento precioso.  Lembre dos seus sonhos, pois eles revelam os melhores caminhos pra você seguir. Aprenda com as imagens dos sonhos. É como se eles fossem uma radiografia, uma tomografia da sua alma. Este é um ótimo momento pra você se conhecer mais. Se prestar atenção nesta passagem verá que isso é incrível, um espetáculo espiritual. Depois destas lembranças, fique um tempo em silêncio, prestando atenção na sua respiração. Preste atenção nos sons que o circundam, na vida que insiste em acontecer ao seu redor. E quando sentir que está em paz, que sua mente está calma, é hora de espreguiçar o corpo, de sentir que tem um corpo, de sentir a respiração profunda, que está vivo. Hora de agradecer e celebrar a vida que ainda está passando por você.
Faça disso um belo ritual. Comece o dia assim, com o frescor de uma nova vida.  Comprometendo-se em vivê-la muito bem, pois não sabe até quando ela estará aí.
E tenha uma ótima quarentena!

Sergio Savian – psicanalista (agende uma consulta online pelo Whatsapp 11 98383 9305)

Por que as pessoas se tornam tão grosseiras em um relacionamento íntimo?

Enquanto as relações são superficiais fica mais fácil manter um bom nível de comunicação, mas na medida em que vai se criando intimidade, é bastante comum perder a linha e partir para a estupidez. As pessoas simplesmente baixam a guarda e deixam que a besta guardada dentro de si, se manifeste. Depois de algum tempo você perde o respeito, começa a colocar o outro para baixo, diz qualquer coisa, ofende, agride e conforme for, parte para a violência física. Assim, você transforma seu amor em um saco de pancadas. Alguns são mais sutis e usam a tática do silêncio, colocando o outro na geladeira, outros fazem greve de sexo, muitos batem a porta, sem contar os que gritam. Tudo para vencer mais uma batalha da guerra que chamam de relacionamento amoroso. Por que isso acontece? Você quer controlar, quer dominar e age assim. Cada um nasce com um temperamento, mais ou menos agressivo, mas muito do que somos é aprendido com os modelos que temos na infância. Os irmãos brigam, numa eterna disputa. Os pais se tratam de qualquer jeito. O desrespeito impera. Uma pessoa que não teve uma boa educação emocional, com certeza se tornará um adulto insuportável. Por isso, todos nós precisamos passar por uma reeducação dos sentimentos. Precisamos entender e lidar melhor com nossa agressividade. Só assim nos tornaremos menos bélicos e mais amorosos.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos(agende uma consulta presencial ou à distância)

Estamos todos condenados à morte, mas isso não é uma novidade!

Texto de Sergio Savian*

Desde que nascemos o nosso destino é morrer. É só uma questão de tempo. Alguns morrem muito cedo, outros no percurso da vida e a maioria morre com mais idade. Mas uma coisa é certa: todos nós vamos morrer. Mas essa é uma verdade que no geral fazemos questão de não olhar de frente. Parece que nunca será com a gente.
Quando alguém tem a sua sentença de morte decretada, depois de se rebelar e achar que é um azarado, percebe que diante do inevitável só resta aproveitar muito bem o tempo que ainda falta. É clássico! Quer dizer, a iminência da morte evidencia o que é mais importante na vida. Deixamos de lado as picuinhas, nos arrependemos do tempo perdido e acordamos para o momento presente, antes que ele acabe. Quer dizer, a vida e a morte andam sempre de mãos dadas. Não dá pra pensar em uma, sem levar em consideração a outra. A vida é um eterno morrer e renascer.Cada vez que dormimos, é uma espécie de pequena morte. Cada vez que temos um orgasmo, também. Perdemos o controle, o ego – o eu, da forma que conhecemos, desaparece. Na verdade vivemos a morte sistematicamente mas não temos consciência disso. Só temos a impressão de que ela é má. Que não deveria acontecer. E evitamos esse assunto a todo custo.
Então, se você nega a morte, e não quer pensar nela, se você faz de conta que ela não existe, tem alguma coisa errada com você! Como você pode negar algo tão real, inquestionável? A gente morre todo dia, morrem pessoas todos os dias.
E o que está acontecendo agora? A morte está passando por aí, e, a gente não sabe exatamente quem ela vai escolher. Pode ser eu, pode ser você, pode ser qualquer um. Essa é a verdade. O medo prevalece, o instinto de sobrevivência fica aguçado. A ordem é ficar em casa, se proteger, pois na rua você vira uma presa fácil.
Tem mais: o nosso pequeno eu não tem a força que imaginávamos. A gente ficou muito tempo achando que éramos muita coisa: julgando, condenando, segregando. Até hoje ainda tem muitos que se sentem superiores ou donos da verdade. Acham que sabem tudo. Sabe nada! Abaixa a crista, coloque-se no seu lugar. Estamos todos no mesmo barco. Agora, ninguém é mais que ninguém.
É claro que devemos ficar em casa, é claro que não vamos sair por aí desafiando o perigo. Mas isso é pouco. Vamos aproveitar essa oportunidade. Tem um outro caminho. Que  tal fazermos as pazes com a vida e entender que a morte não é sua principal inimiga, afinal, ela faz parte. Na real, o principal opositor da vida é o medo. É ele que nos paralisa, é ele que nos ilude dizendo que devemos ter o controle de tudo. Será que temos tanto controle assim? Como medo da morte a gente se engessa, a gente não vive. Queremos segurança, queremos ter cada vez mais segurança. E agora? Que segurança você tem? É sempre bom lembrar: o lugar mais seguro que existe é o caixão. Ali nada de novo acontece. Nenhuma incerteza, nenhum imprevisto. Quer dizer, o medo leva a gente para uma imobilidade mortal. Com medo de morrer, você não vive.Com medo de morrer você se proíbe.Com medo de morrer você se paralisa. O medo não te deixa viver. O medo amarra a gente. Não estamos acostumados com o fluir da vida. É por isso que tem muita gente que está quase morto e não sabe!
Quem se acostuma com o fluir da vida, não tem medo da morte. Quem tem como valor máximo a realização não teme a morte. Gosto muito do título do poeta Pablo Neruda “Confesso que vivi”. Esse é o meu lema e pode ser também o seu.
Quanto menos medo você tiver da morte, mais vai aproveitar a vida. O contrário do medo da vida é aproveitar tudo que você tem direito, dançar a vida, celebrar a vida. Lembrando que aproveitar a vida não é sair por aí buscando a felicidade fora. A resposta não está longe de você, fora de você. O segredo é reconhecer os bons momentos em tudo o que faz, mesmo com as limitações atuais. Amando o que faz, fazendo bem feito, colaborando com o mundo.
O eu pequeno, egóico, do jeito que estamos acostumados, não vai resolver essa situação. Precisamos do Eu grande que vem da humildade, da humanidade, que vem do questionamento dos valores equivocados que andaram nos guiando. O Eu grande se manifesta na união de todos nós. No reconhecimento do que está além da matéria. Está no espírito. Está no amor. E na nossa  boa vontade.
O momento agora não é de reclamar, nem de culpar os outros. Tenha a dignidade de olhar para si e entender o que você tem feito da sua vida. Tenha a coragem de assumir a responsabilidade. O que estamos vivendo hoje é produto das escolhas que fizemos no passado. E isso não muda. O que dá pra mudar é o que vou fazer hoje. E hoje, ao invés de se encolher de medo, podemos dançar a vida e celebrar o fato de estar vivo.
Escuto as pessoas dizendo que não veem a hora de tudo voltar ao normal. Mas eu digo: “Eu não quero que tudo volte como era antes!” Não me interessa esse jeito . Estávamos equivocado, não estávamos felizes. Eu quero que o amanhã seja diferente. Eu quero que o amanhã seja construído com muita consciência hoje. Um amanhã mais alegre, mais gentil, com mais inteligência emocional, com mais cuidado com a gente mesmo e com os outros.

Sergio Savian – psicanalista clínico transpessoal 
(se estiver interessado em seu autoconhecimento, fale comigo pelo Whatsapp  11 98383 9305)